Em um setor historicamente marcado por relações de trabalho instáveis, alta rotatividade e modelos de gestão frequentemente associados a conflitos operacionais, profissionais que propõem novas estruturas administrativas vêm ganhando espaço no mercado da beleza brasileiro. É nesse contexto que se insere a trajetória de Rafaela de la Lastra, cabeleireira, empresária e especialista em gestão de salões, reconhecida por desenvolver uma metodologia que busca reorganizar a dinâmica financeira e profissional do segmento.
Representante da terceira geração da tradicional família De la Lastra — considerada uma das mais longevas e reconhecidas da história da beleza no Brasil — Rafaela cresceu em meio ao ambiente dos salões. Filha do cabeleireiro Rafael de la Lastra, que comandou durante cinco décadas um dos salões mais conhecidos da Rua Bela Cintra, em São Paulo, iniciou cedo sua relação com o setor, ainda como auxiliar no salão da família, enquanto cursava Propaganda e Marketing na FAAP.

Posteriormente, decidiu aprofundar sua formação técnica na Europa. Estudou no Instituto Llongueras, em Barcelona, um dos centros de formação mais reconhecidos da área, onde realizou curso intensivo com formação teórica e prática. Na sequência, especializou-se em instituições como Vidal Sassoon e Tony&Guy, na Inglaterra, ampliando sua formação internacional em técnicas de corte, coloração e gestão de imagem. Fluente em espanhol e inglês, Rafaela também traz da formação multicultural — construída desde o período escolar no colégio hispano-brasileiro Miguel de Cervantes — uma visão mais ampla sobre comportamento, tendências e modelos de negócios aplicados à beleza.
Apesar da herança profissional consolidada, sua trajetória foi marcada por períodos de forte instabilidade. Após retornar ao Brasil, assumiu uma filial do salão da família em Campinas, empreendimento que acabou encerrando as atividades. Em seguida, mudou-se para Miami, nos Estados Unidos, para auxiliar na administração de outra unidade ligada à família, que também veio a fechar anos depois.
Durante os sete anos em que viveu na Flórida, Rafaela enfrentou dificuldades financeiras enquanto criava sozinha as filhas Mel e Clara. Sem uma rede de apoio estruturada, conciliou diferentes funções profissionais para sustentar a família, atuando simultaneamente como cabeleireira, faxineira, bartender, garçonete e até vendedora de rolamentos industriais. Em determinados períodos, relata ter enfrentado situações extremas, incluindo interrupção de serviços básicos em casa enquanto mantinha as filhas em escolas públicas e dependia do sistema público de saúde.
A virada de trajetória ocorreu após um processo de apoio psicológico e mentoria profissional, experiência que, segundo ela, alterou sua percepção sobre carreira, posicionamento e gestão financeira. Pouco tempo depois, começou a reorganizar sua atuação profissional e ampliar sua base de clientes.

A pandemia representou outro ponto decisivo. Com o fechamento do salão onde trabalhava à época, Rafaela desenvolveu rapidamente um modelo de atendimento móvel. Adaptou um Fiat Mobi com estrutura portátil de salão e passou a atender clientes em domicílio, utilizando uma prática que aprendeu ainda com o pai: a manutenção contínua do relacionamento com clientes ao longo dos anos.
Ao mesmo tempo em que reconstruía sua atuação profissional, Rafaela aprofundava uma análise crítica sobre os modelos predominantes do setor da beleza. Segundo ela, o sistema tradicional baseado em comissões — amplamente utilizado em salões — contribui para um ambiente de tensão constante entre proprietários e profissionais, criando instabilidade financeira, conflitos operacionais e insegurança jurídica.
Foi dessa percepção que nasceu o Sistema Autentis, metodologia criada e registrada por Rafaela de la Lastra, atualmente aplicada em mais de 130 salões no Brasil e em outros cinco países desde 2025. A proposta substitui o modelo tradicional de comissão por uma estrutura baseada em valor fixo mensal pago pelos profissionais ao salão, reorganizando as relações internas de trabalho e operação.

Na prática, o sistema prevê gestão descentralizada, contratos estruturados sob regras civis, padronização operacional e maior previsibilidade financeira para os espaços de beleza. Segundo a empresária, a metodologia também reduz custos administrativos, passivos trabalhistas e despesas operacionais, além de permitir uma dinâmica mais colaborativa entre os profissionais.
Em contraposição aos modelos tradicionais, Rafaela passou a utilizar a expressão “Sistema Panela de Pressão” para definir estruturas convencionais de gestão do setor — especialmente aquelas baseadas exclusivamente em comissão, coworking informal ou locação simplificada — argumentando que esses formatos acumulam desgastes financeiros, administrativos e emocionais até atingirem um ponto de ruptura.
Além da gestão, Rafaela mantém atuação técnica como especialista em cabelo, com formação em múltiplas áreas da profissão. Ao longo de 27 anos de carreira, realizou mais de 120 cursos no Brasil e no exterior, desenvolvendo domínio em cortes, penteados, coloração, mechas, alisamentos e finalizações. Seu salão boutique em Alphaville também passou a funcionar como espaço de formação prática, recebendo profissionais em programas de estágio e aperfeiçoamento.

Hoje, sua atuação se divide entre o trabalho técnico, a formação de profissionais e o treinamento de gestores de salões. Paralelamente, desenvolve cursos online voltados à profissionalização da gestão no setor da beleza, com foco em lucratividade, redução de burocracia e equilíbrio operacional.
O plano de expansão prevê a disseminação do Sistema Autentis para milhares de municípios brasileiros e mercados internacionais, acompanhando um movimento mais amplo de transformação dos modelos de trabalho no setor da beleza. Para maio de 2026, Rafaela prepara um grande lançamento digital voltado ao mercado de gestão para salões, em parceria com profissionais do segmento de educação online e marketing digital.
Mais do que uma trajetória de reconstrução profissional, a história de Rafaela de la Lastra reflete mudanças mais profundas em um mercado que busca novos formatos de sustentabilidade, profissionalização e equilíbrio entre gestão, carreira e qualidade de vida.
