O single estreia o álbum produzido por Marcos Valle que celebra o legado do compositor francês.
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Bebel Gilberto, musa da electro-bossa, acelera o ritmo em sua releitura de “Le Loup, la biche et le chevalier” (Une chanson douce), composição de 1950 de Henri Salvador com letras de Maurice Pon. Inspirada pela mãe afro-indígena de Henri, Antonine Paterne, a canção ganha um novo fôlego e abre caminho para este projeto excepcional. Se há um papel que Henri Salvador nunca desempenhou, foi o de ícone pop. Introdutor da biguine moderna em 1950, guitarrista de jazz, pioneiro do rock na França ao lado de Boris Vian, Henri, o sul-americano (da Guiana Francesa), reencontra o foco de sua inspiração com Chambre avec vue (2000), álbum para o qual Keren Ann e Benjamin Biolay lhe oferecem, entre outras, “Jardin d’hiver”. Henri Salvador se apropria dessa canção para transformá-la em uma deliciosa bossa nova suave, de elegância intimista e sutil.
Foi, portanto, audacioso confiar a releitura de Salvador a Marcos Valle, referência do jazz-funk feito no Rio. Carioca de raiz, tão adepto do surfe quanto Henri era da petanca, Marcos Valle foi, no entanto, nomeado arranjador e diretor musical deste Salvador do Brasil, mais do que um álbum, um projeto multifacetado – relembrar os talentos melódicos de Henri Salvador, evidenciar sua proximidade com o Brasil, insuflar uma energia americana (do norte e do sul) em canções francesas patrimoniais, entre outros. Marcos Valle reinventou com elegância onze canções “salvadorianas”, escolhidas desde as primeiras, de 1948, até aquelas do período “bossa” dos anos 2000. Como bônus, há uma inédita, “Je parie”, um hino ao Corcovado, a Paris e ao amor, interpretado por Paula Morelenbaum – com a voz de Henri ao fundo. Influenciada pelos sons da pop californiana, a “marca” de Marcos Valle se reconhece no uso de sintetizadores, aéreos e brilhantes, e na energia incisiva na mistura de ritmos. Assim se dá a transformação de “Jardim” (“Jardins d’hiver”) em um mambo elétrico, interpretado por Simone, ícone pop.
Cabelos longos, camisa florida, frescor eterno, Marcos Valle não teve dificuldade em reunir uma constelação de artistas emblemáticos – de Seu Jorge a Bebel Gilberto, passando por Moreno Veloso, Rogê, Simone e Zélia Duncan, até Zé Ibarra, nova estrela, nascido em 1996. Porque era ele (Marcos) e ele (Henri do Brasil). Após o lançamento, em 1959, do álbum fundador da bossa nova, Chega de Saudade, de João Gilberto, surgiu uma segunda geração de músicos oriundos dessa revolução modernista. Após o golpe militar de 1964, Marcos Valle, nascido em 1943, junta-se a Sergio Mendes, refugiado em Los Angeles, e ao seu grupo Brasil’s 65. Na voz de Wanda Sá, eles apresentam uma versão em inglês de “Samba de Verão”, composta em 1964 com seu irmão – “So Nice” torna-se um sucesso mundial. Marcos Valle colabora depois com o cantor soul Leon Ware (Estrelar, 1983). Hoje, é um dos músicos brasileiros mais sampleados do mundo por DJs e rappers.
Para selar a união entre Salvador e Marcos Valle, era preciso um mediador. Foi Emmanuel de Ryckel, um belga apaixonado por Ipanema e sua música. Ele guarda na memória uma noite de 2006, no Rio. Nessa ocasião, conhece Henri Salvador, assim como Alain Artaud, o produtor que convidou Henri a gravar o álbum Révérence no Brasil e que se tornou parceiro deste projeto. Após Chambre avec vue e Ma chère et tendre (2004), o vínculo com o Brasil continua: o presidente Lula o condecora (grã-cruz), o ministro da Cultura (Gilberto Gil) pega o violão. Há uma festa, com a elite da bossa nova. De passagem, Marcos Valle presta homenagem e cantarola “Rose”, uma canção de 1958, ao lado de um Salvador bem-humorado. Não há acaso. Nascido na Guiana, de pais guadalupenses, Henri Salvador (1917-2008) chega ao Brasil pela primeira vez em 1942, recrutado por Ray Ventura. Sobre o jovem guitarrista, Ventura diz: “Com esse mulato, tudo é luxo”.
Eles estão no Rio, cidade apaixonada por crooners. A orquestra Les Collégiens toca um swing alegre. Ventura parte para os Estados Unidos; Henri fica. Sem dinheiro, mas apaixonado pelo país, vive ali por quatro anos e constrói sua reputação. De volta à França em 1948, Salvador triunfa com “Maladie d’amour”, tema criado por sua tia, Leona Gabriel. Marcos Valle confiou a canção a Rogê e Féfé. Em 1959, Henri compõe “À Cannes cet été” com Boris Vian, Quincy Jones e Eddy Barclay. Eddy Mitchell, que a regravou em 2011, oferece agora uma versão orquestrada com Zélia Duncan. O Brasil sempre o acolheu. Embora não esteja neste disco, sua canção “Dans mon île” (1958) marcou Roberto Menescal e Nara Leão, levando Tom Jobim a dizer: “Henri Salvador inventou a bossa nova”. Caetano Veloso, que a regravou em 1981, define Salvador como “imenso”. Henri tinha letristas favoritos como Maurice Pon e Bernard Michel. Marcos Valle trouxe letras em português através de Lucas Santtana, permitindo que Seu Jorge transformasse a política “Les voleurs d’eau” em um afro-samba potente, enquanto Zé Ibarra nos conduz em francês por “É bonito a França” em estilo music-hall. Assim embarcamos nesta viagem de onze canções, criadas por um especialista no ócio e revisitadas por um Brasil entusiasmado e ardente.
Tracklist do álbum:
- "Une chanson douce" – Bebel Gilberto
- "Pauvre Jésus Christ" – Quarteto do Rio & Silva
- "À Cannes cet été" – Zélia Duncan & Eddy Mitchell
- "Les voleurs d’eau" – Seu Jorge
- "Le Wagon" – Zé Ibarra
- "Jardim" – Simone
- "Maladie d’amour" – Rogê & Féfé
- "Les mandolines" – Dora M
- "Chambre avec vue" – Moreno Veloso & Flore Benguigui
- "Dans tes yeux" – Maria Luiza Jobim
- "J’ai vu (Na pele de um flaneur)" – Celso Fonseca
- "Je parie" – Paula Morelenbaum & Henri Salvador
- "Rose" – Joyce Moreno & Marcos Valle